Joana. O homem estava fazendo as malas. Primeiro foram os olhos. Depois as malas. Joana é mulher estrangeira. Inventou o mundo. Depois o homem cortou os cabelos. Usou o espelho da sala, sentou com a tesoura e começou a cortar. Tomou banho. Não estava com palavras. Paredes escritas. Joana deitada na cama pensou que talvez fosse esquizofrenia. Admira a distancia do homem. Cada vez mais distante. Fazendo as malas, cortando os cabelos. No corpo dela uma cicatriz bonita. Ela mostra, gosta. Fica no espelho. Vem de dentro um prazer sutil do seu defeito. E as coisas velhas, usadas, gastas e sujas. Gosta dos amigos desconhecidos. O jeito de falar que ama o sexo e que tem dificuldades de sentir prazer com homens. Esse homem. Agora estava fazendo as malas. Ela deitada na cama, escrevendo num caderno, as pernas balançando para o alto. Gosta de pensar nas suas mulheres quando está na cama. Todos os detalhes. Uma em especial. A mulher. Grande, tímida e branca. Primeiro se culpou por amá-la. Depois amou. Ele com os cabelos cortados. Ela gosta de pintar. Pintar os cabelos e todo mundo no ônibus percebe. Ela pensando. O homem fez a barba. Joana se confunde com os cheiros. O cheiro do homem lembra o cheiro da mulher. O cheiro dos dois. Eles não se conhecem, mas têm o mesmo cheiro. Sentia o cheiro dela transando com ele. Ela chegava e corria direto para a cama. Fingia que adormecia enquanto Joana buscava um copo d’água. Depois Joana alisava o corpo adormecido. Os lábios. E assim ficavam as duas. Uma adormecida e outra acordada. Alisando. E não passavam disso. Silêncio. Com o homem Joana chupava, sentava, batia. Queria dar todo prazer que aquele homem bonito, forte e seco merecia. Precisava. Saiu de casa para comprar cigarros e ficou parado na calçada. As malas prontas. Joana não tinha motivos. Nem isso nem o contrário. Um dia inteiro sem comer. As pernas balançando. Cicatriz no corpo.
sábado, 24 de março de 2007
amidalite
Teve muita febre a noite toda. A garganta doía com um desgosto quase insuportável. Sofria para engolir, com leite quente, o antibiótico, antiinflamatório e antitérmico. Estava mais indisposto que nunca. Sofreu até o banho e chorou, chorou de desespero. Água quente. Uma canseira nas pernas e uma preguiça de dançar o corpo. Barbeou-se no chuveiro. Deixou as costeletas. Esquentou mais um leite quente. A garganta estava melhor que ontem. Vestiu-se de marrom. Sobretudo, chapéu, calça e sapatos. Abriu a porta para pegar o jornal e encontrou o porteiro do prédio. Trazia nas mãos o jornal, tão cedo era. O dia ainda estava amanhecendo. Conversaram com olhares. Nenhuma palavra. Era como se não houvesse segredo. E não havia. Estava tudo já escrito no jornal. Estendido sobre a mesa, a arma descarregada ao lado, um corpo gritando no chão. Não queria estar com aquela amidalite. Reclamou feito criança. Tomou um gole de uísque. Era dia quando tomou o Praça Ramos para depois caminhar lentamente até a Praça da Sé. Não era o caminho mais próximo nem o mais lógico. Mas chegou adiantado. Dez minutos. Os noticiários o apontavam como favorito. O adversário era um velho amigo, ou melhor, um ex-amigo. Ignorasse os motivos aqui. Sabe-se das coisas dos homens que, nem tudo carece de maldade para se transformar em tragédia ou espetáculo. Tanto isso que o coração dos dois negavam o duelo. Mas a razão insistia. Insistia e vencia. A multidão se aglomerava. O outro também já estava lá, manuseando sua arma, sendo orientado por alguns camaradas. Contaram os passos, um tiro, e o homem caiu morto. No fundo do peito, graças a Deus. Ou morreriam os dois pela covardia e pela angústia.