sábado, 24 de março de 2007

amidalite

Teve muita febre a noite toda. A garganta doía com um desgosto quase insuportável. Sofria para engolir, com leite quente, o antibiótico, antiinflamatório e antitérmico. Estava mais indisposto que nunca. Sofreu até o banho e chorou, chorou de desespero. Água quente. Uma canseira nas pernas e uma preguiça de dançar o corpo. Barbeou-se no chuveiro. Deixou as costeletas. Esquentou mais um leite quente. A garganta estava melhor que ontem. Vestiu-se de marrom. Sobretudo, chapéu, calça e sapatos. Abriu a porta para pegar o jornal e encontrou o porteiro do prédio. Trazia nas mãos o jornal, tão cedo era. O dia ainda estava amanhecendo. Conversaram com olhares. Nenhuma palavra. Era como se não houvesse segredo. E não havia. Estava tudo já escrito no jornal. Estendido sobre a mesa, a arma descarregada ao lado, um corpo gritando no chão. Não queria estar com aquela amidalite. Reclamou feito criança. Tomou um gole de uísque. Era dia quando tomou o Praça Ramos para depois caminhar lentamente até a Praça da Sé. Não era o caminho mais próximo nem o mais lógico. Mas chegou adiantado. Dez minutos. Os noticiários o apontavam como favorito. O adversário era um velho amigo, ou melhor, um ex-amigo. Ignorasse os motivos aqui. Sabe-se das coisas dos homens que, nem tudo carece de maldade para se transformar em tragédia ou espetáculo. Tanto isso que o coração dos dois negavam o duelo. Mas a razão insistia. Insistia e vencia. A multidão se aglomerava. O outro também já estava lá, manuseando sua arma, sendo orientado por alguns camaradas. Contaram os passos, um tiro, e o homem caiu morto. No fundo do peito, graças a Deus. Ou morreriam os dois pela covardia e pela angústia.

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