Mais vodca no copo. Mais gelo. Limpou o cinzeiro, abriu a gaveta, o fumo e a faca. Separar os galhos e as sementes. Ganhar tempo. Enrolar suave, fino, sem muitos desejos. Queimar sozinho, abajur, livro, cabeceira. Nada. Quase sempre o motivo é esse. Uma boceta, talvez. Sem jeito. Não está para ninguém, nem sozinho. Alguma coisa por dentro. Quis escrever uma carta e escreveu. Escreveu um bom começo e começou. Nada disso nem daquilo, como sempre. A mesma palavra sempre. E a palavra quase, a palavra talvez. A palavra. Alocução, oração, discurso. Promessas e mais promessas. O direito de falar. Maneira de falar. Jeito. Exclamação peremptória. Ponto final. Reticências. Dicionário de repetições, invenções e contextos. Contextos ou não, ou algum, alguém. Dia sim dia não. Tudo de acordo com as caganeiras, o medo de estar doente, os noticiários. A vida está uma guerra. Os vícios, o trabalho, a casa e os momentos. Uma guerra sozinho. Nem os pensamentos nem nada. Sozinho. Atenção e picardia de gole em gole. Mais vodca. O cinzeiro está cheio outra vez. Mentira. O copo gelado molha a madeira. Engano, impostura, fraudes ou falsidades. Um frio estranho. Frio de contos e cinemas. Lorota. Conversa. Hábito de mentir. Engano dos sentidos ou do espírito. Erro. Ilusão. Tentou trabalhar com a janela aberta, cueca e camiseta. Juízo falso. Fábula. Ficção. A necessidade da palavra. Mais vodca no gelo. Boca seca dá saudade. Saudade besta. Teima em não pensar, mas pensa. Faz parte dos prazeres, dos desejos. Nem tão vazio como se sente. Roupa suja num canto, roupa limpa noutro. Cada vez mais difícil de engolir. Cada vez mais difícil de fumar. A necessidade que obriga e constrange. Cabeça que não se agüenta. Ninguém. Um pouco de água e garganta. Ficou parado, olhando, procurando. Parecia pensar. Dúvida. Pensando no que pensar. Olhar de nada. Assoar o nariz, escovar os dentes. Abrir a gaveta, cemitério de pontas e seda. Abrir bagana por bagana, sujar os dedos. Enrolar e acender. Queimar sozinho. Sede. Vícios carregados de promessas. Promessas orgânicas e psíquicas. Engasga com fumaça e pensamento. Volta para a carta. Uma carta sem texto, sem tempo. Nenhuma vontade de carta. Nenhuma vontade de nada. É o homem daquele jeito. Jeito de chegar de repente. Cozinha, quarto e banheiro. Sem olhos nem olhares. Respostas rápidas. Crise besta de dar vergonha, tímido no quarto, cansado da vodca. Dúvidas e incertezas. Perigo, embaraço, conflito ou vice-e-versa. Tecido.
sábado, 24 de março de 2007
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Tecido: Abrir a gaveta, cemitério de pontas e seda. Abrir bagana por bagana, sujar os dedos. Enrolar e acender. Queimar sozinho. Sede. Vícios carregados de promessas. Promessas orgânicas e psíquicas. Engasga com fumaça e pensamento.
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